domingo, 28 de junho de 2009

Aprender a conviver

Rosely Sayão

Um estudo da OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico), publicado na última semana, concluiu que o professor perde muito tempo para manter a ordem em sala de aula. Isso não é novidade para quem trabalha em escola, já que a indisciplina é um dos fatores que mais estorvam o ensino de qualidade.
Suas causas são diversas. Em geral, a ausência da intervenção familiar e algumas características do próprio aluno ganham lugar de destaque ao analisarmos o fenômeno na escola. Vamos pensar a respeito do papel dos pais nessa questão.
A falta de limites na educação familiar tem sido um bordão utilizado por especialistas de diversas áreas para explicar o comportamento ruidoso, incivilizado, transgressor e, por vezes, violento dos alunos em sala de aula. Mas devemos mudar o foco da discussão, já que esse não tem ajudado quase nada.
Podemos pensar, por exemplo, em como tem ocorrido a socialização de nossas crianças.
Cabe aos pais iniciar esse processo: ensinar o filho a falar, a vestir-se, a alimentar-se, a cuidar de seu corpo, por exemplo, são partes fundamentais. Entretanto, nada disso ganha sentido se não ocorre no grupo familiar e com ele. É preciso que a socialização seja coletiva, portanto, mesmo que no âmbito privado.
Por exemplo: o ato de falar. Não basta que os pais ensinem a criança a nomear e a pronunciar as palavras corretamente para se expressar. É preciso que ela aprenda a se comunicar, ou seja, a usar a fala na relação com os outros.
Os pais precisam ensinar a criança a se comunicar com a família. "Espere sua vez para falar", "Não interrompa sua mãe" e "Fale mais baixo" são exemplos de frases que ajudam a criança, desde pequena, a usar a fala de modo social e dialógico, ou seja, considerando os outros com quem interage e o grupo em que vive. O mesmo vale para o andar, o alimentar-se...
Entretanto, temos hoje dois fatores que atrapalham situações que favoreçam esses tipos de intervenção. O centro das famílias passou a ser lugar ocupado pelos filhos e, por isso, os pais priorizam o que eles fazem. Calam-se quando eles falam, acham natural que corram em ambientes fechados, que se alimentem a qualquer hora, não chamam a atenção quando eles tomam atitudes inadequadas na frente dos outros. Mais do que deixar de colocar limites, muitos pais acatam o comportamento dos filhos.
O segundo motivo é que, cada vez menos, as famílias se reúnem para uma refeição ou compartilham períodos juntos. A casa tornou-se um ambiente em que cada integrante da família tem sua própria vida. O individual superou o coletivo também no interior da família.
Por isso, muitas crianças chegam à escola sem saber como estar com os pares, com os adultos e no grupo e lá precisam aprender quase tudo. Essa é nossa realidade.
Por fim: os professores não "perdem" tempo quando colocam ordem na sala de aula. Criar a ambiência positiva para o ensino é parte integrante da aula, afinal.

domingo, 14 de junho de 2009

Caso Pluvioso - Carlos Drummond de Andrade

A chuva me irritava. Até que um dia
descobri é que Maria é que chovia.
A chuva era Maria. E cada pingo
de Maria ensopava o meu domingo.
E meus ossos molhando, me deixava
como terra que a chuva lavra e lava.
Eu era todo barro, sem verdura...
Maria, chuvosíssima criatura!
Ela chovia em mim, em cada gesto,
pensamento, desejo, sono e o resto.
Era chuva fininha e chuva grossa,
matinal, noturna, ativa... nossa!
Não me chovas Maria, mais que o justo
chuvisco de um momento, apenas susto.
Não me inundes de teu líquido plasma
não sejas tão aquático fantasma!
Eu lhe dizia - em vão - pois que Maria
quanto mais eu rogava, mais chovia.
E chuveirando atroz em meu caminho,
O deixava banhado em triste vinho,
que não aquece, pois a água de chuva
mosto e de cinza, não de boa uva.
Chuvadeira Maria, chuvadonha,
chuvinhenta, chuvil, pluvimedonha!
Eu lhe gritava: pára! E ela, chovendo,
poças d'água gelada ia tecendo.
Choveu tanto Maria em minha casa
que a correnteza forte criou asa
e um rio se formou, ou mar, não sei,
sei apenas que nele me afundei.
E quanto mais as ondas me levavam,
as fontes de Maria mais chuvavam,
de sorte que com pouco, e sem recurso,
as coisas se lançavam no seu curso,
e era o mundo molhado e sovertido
sob aquele sinistro e atro chuvido
os seres mais estranhos se juntando
na mesma aquosa pasta iam clamando
contra essa chuva, estúpida e mortal
catarata (jamais houve outra igual)
anti-pretendam cânticos se ouviram.
Que nada! As cordas d'água mais deliravam,
e Maria, torneira desatada,
mais dilata em sua chuvarada
os navios soçobram Continentes
já submergem com todos os viventes,
e Maria chovendo. Eis que a essa altura,
delida e fluida a humana enfibratura,
e a Terra não sofrendo tal chuvência,
comoveu-se a Divina Providência,
e Deus, piedoso e enérgico, bradou -
Não chove mais Maria! - E ela parou.

sábado, 28 de março de 2009

"A arte é a mais bela forma do sonho perguntar à realidade:
por que não?"
Manoel Affonso de Mello

Arte na Alfabetização


Autor : Claudia Maria de Almeida Carvalho

Ler, gostar de poesia e de outras formas de
arte atualmente parece estar em contradição com o ritmo de vida que não conhece os tempos longos e em contradição com o ecletismo da cultura contemporânea. Porém o fascínio pela arte acompanha seus autores e admiradores, chamando a atenção para a sua importância e projetando nova luz sobre a arte.
A palavra arte traz à mente obras consagradas pela cultura e destinadas a provocar o sentimento do belo. Arte pode ser entendida como estilização da realidade, instauração de novas existências, criação de formas. Toda ação humana voluntária e consciente, que tende a produzir beleza ou emoção estética, é arte.
Artes plásticas, arquitetura, cinema, fotografia, literatura, música erudita, música popular, quadrinhos e teatro são as maiores formas de manifestação artística no Brasil.
A partir da segunda metade do século XX, surgiram novas formas de arte: grafite: pintura por meio de spray em lugares públicos; instalação: disposição de elementos no espaço com a intenção de estabelecer uma relação com o espectador; arte postal: que se utiliza do meio postal para a criação e divulgação; arte ambiental: que modifica e se relaciona com elementos da paisagem natural, principalmente por meio de escultura e da instalação; performance: execução de uma ação espontânea ou teatral.
A arte tem o sentido de cultivar a sensibilidade e a emoção e de desencadear um número enorme de atividades que trabalham diretamente a questão da alfabetização.
A arte torna o trabalho educativo interessante, atraente e sedutor. Para tornar os alunos mais sensíveis e despertá-los para um mundo novo de sensações, o talento e a flexibilidade do professor, da sua arte, dependerá o êxito da sua missão.
A manifestação artística tem em comum com o conhecimento científico, técnico ou filosófico seu caráter de criação e inovação. Essencialmente, o ato criador, em qualquer das formas de conhecimento, estrutura e organiza o mundo, respondendo aos desafios que dele emanam, num constante processo de transformação do ser humano e da realidade circundante. Os meios de expressão criadora: criação pelo desenho, criação pela palavra, criação pela construção, criação pela música e pelo movimento, desenvolvem a sensibilidade, a fluência, a flexibilidade, a originalidade, a redefinição e reorganização, a abstração, a síntese, a organização.
Esse imenso campo de desenvolvimento de capacidade e de formação de hábitos de trabalho e de vida é indispensável ao aprendizado de todas as áreas do programa escolar.
Música: o ritmo está presente na própria vida orgânica, nas mais variadas relações do indivíduo com seu meio. Desde cedo as crianças batem palmas, balançam o corpo e marcham, sob a influência da música. A melodia, o ritmo e a dança são cultivados desde as civilizações mais rudimentares.
Poesia: sensibiliza qualquer ser humano. É a fala da alma, do sentimento.
Drama: como arte auxiliar da aprendizagem é muito importante e o seu campo muito vasto. Dentro da dramatização, pode-se desenvolver o teatro de sombra, o de fantoches, o de vara para crianças e, mais tarde, a peça teatral, sendo os alunos, os próprios personagens e também autores das peças.
A pintura, a construção, o desenho, a modelagem são outras formas de arte indicadas para a educação artística/estética dos educandos.
O jogo é uma linguagem de gestos, movimentos e mímica, tanto quanto uma linguagem de palavras. A verdadeira linguagem social das crianças, quer dizer, a linguagem utilizada na atividade fundamental das crianças.
O processo de socialização da criança, isto é, a progressiva capacidade de conhecer e conviver com o espaço social que a cerca, suas regras e padrões de comportamento, inicia-se no momento em que a criança nasce. Desenvolve-se com a capacidade simbólica do pensamento que fornece à criança condições para o progresso rápido desse processo, o desenvolvimento da linguagem, a capacidade de brincar e de interagir com outras crianças e a possibilidade de conviver com outros grupos além do familiar.
O brincar é um elemento essencial do comportamento humano e também a atividade mais vital da infância. O brincar, como atividade objetiva da infância, é o instrumento que facilita o crescimento, a aprendizagem e o desenvolvimento bem equilibrado. Os tempos modernos, além de eliminarem o sentimento geral de que o brinquedo é supérfluo, estabelecem de maneira positiva o papel importante de que ele tem no desenvolvimento motor e mental da criança. O progresso da ciência, o desenvolvimento industrial, os novos materiais, o mundo em transformação fazem com que as crianças, além de seus brinquedos estáticos, inanimados, solicitem outros que representam uma extensão de seu sentido de integração no tempo. Surgem os brinquedos mecânicos, eletrônicos, auto-reguláveis e de controle remoto. Surgem também brinquedos com regras, como jogos, que a criança já não pode mais agir com o impulso imediato. Ela vai adquirindo autocontrole, e suas maiores vitórias são conseguidas através do brinquedo, vitórias que influenciarão suas ações reais e morais, no futuro.
O conceito de arte transformou-se - hoje, a arte é percebida construída e não mais como expressão; o público já não é mais passivo, pode ser incorporado, ativamente, como colaborador/leitor dentro da linguagem da obra. Isso se deve a novas descobertas das linguagens técnicas: fotografia, rádio, cinema, TV, disco..., que são linguagens passíveis de serem reproduzidas.
É essencial que a escola reafirme o compromisso de introduzir a arte em seu currículo.O ensino aprendizagem perpassado pela alegria e beleza da arte, num clima onde as relações humanas são revestidas de maior aprazabilidade, contribuirá para a realização de uma educação verdadeiramente comprometida com a cidadania.


segunda-feira, 16 de março de 2009

“Ao levar os alunos a utilizarem as ferramentas gratuitas e de fácil publicação existentes na Web está-se a contribuir para o desenvolvimento e preparação de cidadãos aptos para a sociedade da informação e do conhecimento. E, deste modo, estamos a proporcionar condições para que os alunos aprendam com a tecnologia, apoiando-os na “construção de significados”

Computadores, Ferramentas Cognitivas - Desenvolver o pensamento crítico nas escolas
David H. Jonassen
Editora Porto